O Papa e as prerrogativas pontifícias.
Tradução por: Gabriel Sapucaia
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Estudos
sobre Deus, a Igreja, o Papa e sobre o sobrenatural e os sacramentos
M. l'abbé J-B. AUBRY
Doutor em teologia
Paris Desclée, de Brouwer&Cie 1887, pp. 332-344
CAPÍTULO
XVIII
O Papa e as prerrogativas pontifícias.
I
PRIMAZIA E INFALIBILIDADE PONTIFÍCIA
I. Da mesma forma que a construção de um edifício começa pela base, também a noção da Igreja começa pela do Papa, que é precisamente estabelecido por Nosso Senhor como o fundamento da Igreja. A noção da autoridade sobre a qual foi fundada toda a constituição da Igreja sendo assim posta, aquela de toda a constituição da Igreja dela decorrerá facilmente, assim como toda a hierarquia. É notável, além disso, que quando Nosso Senhor começou a estabelecer a Igreja e determinou sua forma e constituição, Ele começou por determinar o poder de São Pedro e por estabelecer a primazia. Assim, identificaremos, aqui novamente, como deve ser feito sempre que possível, a ordem lógica com a ordem histórica; pois a história do estabelecimento da Igreja procede nisso precisamente como a constituição do seu próprio corpo.
II. Assim como, entre os meios intrínsecos divinamente estabelecidos para produzir a graça, e confiados à Igreja de Jesus Cristo como vasos preciosos que contêm as riquezas espirituais acumuladas pela Redenção, a Eucaristia é o centro, a fonte, o foco de todas as graças, a cratera do vulcão da graça, visto que a Eucaristia é o memorial verdadeiro, real, e a reprodução da Redenção, o vaso dos méritos de Jesus Cristo, e que por ela deve passar e dela vir toda a graça comprada pela Redenção e conferida pelos outros sacramentos; da mesma forma, na Igreja, no meio de toda a organização dos ministérios apostólicos, estabelecidos para conferir a graça com a virtude própria de produzi-la, porque toda a Igreja é portadora da graça, cheia de graça, impregnada de graça, transbordante de graça, como o favo das abelhas é cheio e transbordante de mel, da mesma forma, digo, no meio dessa organização, o Papa, sendo a fonte de toda a ordem e de toda a jurisdição, comandando todo o poder eclesiástico e todo ato em nome do qual se confere a graça, o Papa é a fonte de toda a graça, o portador do sangue de Jesus Cristo e dos méritos da Redenção, o mestre de seus tesouros - constituit eum Dominum domus suae et principem omnis possessionis suae[1] - o Papa é encarregado, enriquecido, adornado, transbordante dos méritos de Jesus Cristo, que fluem dele para o mundo; ele é a cratera do vulcão do sobrenatural, ele é a Eucaristia do ministério eclesiástico[2].
III. Bossuet quer que o Papa seja chefe da Igreja, mas que, no entanto, ele seja obrigado, como todos os súditos de quem ele é o chefe, às leis das quais ele é o legislador[3]... Sem dúvida, o Papa nunca agirá e não pode agir sem leis; mas, como todo legislador, ele tem o poder de dispensar da lei ou de modificar suas aplicações. Ele o fará, prudentemente deve fazê-lo, apenas por boas razões; mas, como ele é o chefe, cabe a ele julgar essas razões, e ele não deve contas a ninguém sobre o que ordena; ele é a lei viva, e a lei escrita, que é uma letra morta, só tem valor na medida em que ele lhe dá[4].
IV. A infalibilidade é tão inerente à primazia da jurisdição e dela decorre de forma tão necessária, que até mesmo as autoridades humanas, que não reivindicam para si e a quem ninguém atribui em princípio a infalibilidade, mas que têm apenas a primazia sobre um certo grupo de homens, na prática são obrigadas a atribuí-la a si mesmas, ou seja, a se conduzir como se a tivessem, a supor que a têm, e a exigir que lhes seja atribuída, ou seja, que se obedeça e se adira à sua palavra como a expressão suprema, irreformável e adequada do bem e da verdade; os súditos agem na mesma suposição, e todos consideram como revolucionário aquele que supõe o erro possível na palavra ou no comando do príncipe. Essa observação foi feita por Joseph de Maistre em vários lugares de suas obras; o próprio Bossuet a utilizou[5]. Ora, quando se trata da autoridade do Papa, a qual é, em virtude da primazia da jurisdição, a mais alta autoridade que existe na terra, as mesmas razões militam em seu favor, mas com um alcance muito maior. Como essa autoridade é divina, não apenas é necessário que ela aja em relação aos seus súditos como se fosse divina, mas é necessário que ela o seja; pois as instituições divinas são sempre completas, sem lacunas, sem falhas, e nunca funcionam por meio de mentiras, nunca são baseadas em hipóteses fictícias; mas é necessário que essa autoridade seja infalível.
V. Os testemunhos de São Jerônimo em favor tanto da primazia quanto da infalibilidade do Papa têm um valor particular, baseado em sua situação. Emigrado do Ocidente para o Oriente, e colocado no meio dessas cristandades orientais todas devoradas pela heresia de que ele fala muito frequentemente, em suas obras e Epístolas; tendo a experiência do Ocidente e do Oriente por ter vivido muito tempo lá e mantido relações numerosas e ilustres, todas voltadas para a doutrina e os interesses católicos; ele via bem a necessidade dessa primazia do Papa, e como ela era a única luz, o único recurso das Igrejas distantes. Combatido por todos os hereges, ele sentia ele mesmo, pela força das coisas, a necessidade de um ponto de apoio, de uma defesa, de um oráculo seguro a ser consultado. Em relação com grandes espíritos de todo o mundo, mesmo e especialmente com o Ocidente e com Roma, ele conhecia a opinião das Igrejas particulares sobre esse assunto, ao mesmo tempo em que constatava também suas necessidades e via que o que fazia a força das Igrejas ocidentais era sua união com Roma. A época em que vivia, que era uma época de terríveis perturbações políticas e doutrinais, revelava-lhe a mesma necessidade. Enfim, sua ciência profunda das tradições eclesiásticas, sua erudição impressionante, conferem ao seu testemunho um grande valor.
VI. Não só o Papa tem a primazia na Igreja; mas sua primazia é a fonte de toda a autoridade, de toda a jurisdição, de todo o poder eclesiástico, de todo o sacerdócio na Igreja, da própria forma da Igreja e de toda a graça que se distribui na Igreja; e seu privilégio contém e gera todas as prerrogativas da Igreja.
VII. O que dá força à palavra de São Cipriano sobre a primazia da Igreja Romana e sobre o recurso ao Papa nas coisas eclesiásticas - ad hanc propter potiorem principalitatem necesse est convenire omnem Ecclesiam, omnes undique fideles - é que São Cipriano, precisamente, era consultado por toda a Igreja sobre todos os tipos de questões, por causa de sua ciência e de sua grande influência.
VIII. O Papa sendo o centro da unidade, e não apenas isso, mas o coração da Igreja e a fonte da vida cristã; à medida e na proporção em que se separa ou se afasta dele, na teoria ou na prática, o mal-estar interior e sobrenatural se manifesta por uma diminuição de vida, de obras, de fecundidade; e o ensinamento[6] é geralmente, de todas as partes do corpo da Igreja, ou de uma igreja, a primeira onde essa diminuição se evidencia, pois é por aí que necessariamente começa o mal, e, para entrar, é preciso que ele passe por ali. Roma é centro de luz pelo ensino que distribui, e centro de graça pela jurisdição e pelo ministério que dela emanam.
IX. Ó milagre! O papado não morreu dos ataques incessantes lançados contra ele. Não se viu mesmo a popularidade renascente da Sé Apostólica, toda fundada na afirmação heroica dos princípios mais opostos às ideias modernas? E com que emoção, desde o início deste século, o mundo inteiro, católicos, dissidentes, incrédulos, acolheram as menores palavras caídas dos lábios do Papa, uns para torná-las oráculos, outros para buscar nelas o alimento de suas cóleras e o pretexto de suas acusações.
II
POR QUE ROMA É A SEDE DO PAPADO
I. Entre as características próprias e distintivas desses povos ocidentais, entre os quais Deus instalou Sua Igreja docente, e sobretudo a verdadeira cátedra do grande e supremo doutor do mundo, São Pedro, é fácil discernir os traços intelectuais e morais que foram a razão da escolha da Europa, e particularmente de Roma, como sede da Igreja, que sem dúvida motivaram Nosso Senhor a estabelecer a Santa Sé entre esses povos, ou, para ser mais preciso, que Ele lhes concedeu para prepará-los e torná-los aptos para esse desígnio de Sua Providência sobrenatural sobre eles. A Europa e Roma não escaparam mais do que outros povos aos erros do paganismo; talvez até a idolatria tenha reinado no Império Romano mais completamente e mais exclusivamente do que em qualquer outro lugar. Mas, no meio desses erros, a luz natural, os princípios racionais, o que Cícero chama de ideias eternas e imutáveis, sempre se conservaram invioláveis entre os povos ocidentais pela força espontânea do bom senso desses povos; enquanto em todos os outros, na Ásia, no Extremo Oriente, na Índia, esses princípios acabaram por se obliterar e se encontraram obstruídos não apenas pelo erro pagão, mas por uma infinidade de superstições que obscureceram toda a luz racional. De modo que, entre os ocidentais, sempre restou uma filosofia e ideias naturais corretas. Compare-se os filósofos ocidentais, especialmente os de Roma, com os orientais, e se verá essa superioridade aparecer de forma evidente.
Ora, digo que esse caráter intelectual de bom senso e retidão, essa persistência, essa firmeza da luz da razão, entre os ocidentais e especialmente em Roma, foi uma das grandes causas pelas quais Deus instalou Sua Igreja ali, ou, o que é a mesma coisa, um dos grandes privilégios pelos quais Deus preparou esses povos para o papel que lhes destinava, e os tornou aptos para receber entre eles a arca sagrada do Novo Testamento, a Igreja Católica, a sede suprema do papado, o coração da hierarquia sagrada. Essa foi a preparação evangélica, e a história comparada das religiões e filosofias antigas demonstra com abundância que essa preparação só ocorreu na Europa, com esse caráter providencial e esses sinais evidentemente sobrenaturais de uma missão particular reservada a esses povos[7].
II. Assim como não foi por acaso, mas por um desígnio profundo e motivado de Deus, que o centro da Igreja e a grande autoridade pontifícia foram fixados em Roma, o povo romano foi destinado, desde o início, e preparado de antemão para a execução desse projeto divino. Ele se preparou inconscientemente, e todos os atos que preenchem sua história antes de Jesus Cristo não são senão episódios dessa preparação. Quem, no fundo da História romana, não viu esse movimento imperceptível e oculto, mas profundo e irresistível, de onde procedem todos os outros; esse não compreendeu o Summum caput, o significado final da História romana.
Há mais. Embora o povo romano ignorasse tanto o objetivo para o qual Deus o conduzia quanto sua própria cooperação no trabalho da Providência para preparar o reino do Messias e a Igreja, ainda assim havia dentro de si um pensamento, um pensamento vago e impreciso, mas poderoso, um instinto profundo desse desígnio providencial ao qual trabalhava, tanto que, uma vez que o evento se realizasse e fosse conhecido, o povo romano poderia ter dito: Eu não sabia o que estava sendo preparado, mas sentia que algo estava sendo preparado; eu não sabia disso, mas o sentia; por princípio reflexivo, eu trabalhava contra, mas por instinto, eu preparava a favor. Parece até que, por momentos, por lampejos, a luz surgia na própria inteligência do povo, e aquilo que normalmente era apenas um instinto vago, tornava-se uma noção precisa, uma esperança clara, uma tendência determinada e formulada. No meio do caos literário, filosófico, intelectual do Império Romano, durante os séculos que precederam Jesus Cristo e especialmente nos últimos anos, recolheram-se muitas palavras que parecem escapadas de almas atormentadas por um espírito profético e que contêm um sentido profético. Os grandes escritores, especialmente, que são os mais visionários e que parecem carregar em si a inteligência, as ideias e os sentimentos de todo o povo, às vezes dizem coisas que se poderia pensar serem inspiradas e que, no mínimo, apresentam, com o evento ocorrido pouco depois, uma notável coincidência, e revelam, na sociedade romana, uma preocupação profunda. É notável que os três escritores em que esse tipo de palavras mais se encontram e são mais claras, são os três príncipes das Letras romanas: Tácito, o príncipe dos historiadores; Cícero, o príncipe dos oradores; e Virgílio, o príncipe dos poetas. Vê-se claramente que o Império Romano estava e se sentia particularmente interessado na vinda do Messias[8].
III
O PAPA HONÓRIO[9]
E A INFALIBILIDADE PONTIFÍCIA
I. A conduta do Papa Honório e a condenação imposta pelo Concílio de Constantinopla provocaram uma objeção muito persuasiva contra a infalibilidade do Papa. Aqui estão os elementos dessa objeção:
1º
Se considerarmos em si mesma a conduta de Honório, vemos este Papa conceder aos
monotelitas Sérgio e Ciro cartas pelas quais, de acordo com seu desejo, ele
impõe silêncio àqueles que ensinam as duas vontades e critica a carta sinodal
de Sofrônio, carta que é aprovada pelo terceiro Concílio de Constantinopla
(sexto ecumênico) e que ensina as duas vontades. O próprio Honório diz
positivamente: Unam voluntatem fatemur D. N. J. C.
2º Se considerarmos a condenação imposta pelo Concílio de Constantinopla, vemos
que em seis partes de seus atos, esse Concílio condena Honório porque, em sua
carta, ele se desvia da doutrina dos Padres, abraça a doutrina de Sérgio,
trabalha para o mesmo fim que os escritos dos hereges; porque o demônio se
serviu dele como dos outros, para semear o erro, porque ele ensinou uma única
vontade e uma única operação. Finalmente, o Concílio enumera os nomes dos
hereges, adiciona o de Honório e diz: Omnibus haereticis anathema qui
praedicaverunt.
II. Aqui estão os elementos de uma resposta a essa objeção:
1º Se estudarmos os fatos sem preconceito, aparece claramente que não há erro no escrito do Papa Honório. Pois Sérgio relata ao Papa a disputa que surgiu entre Ciro e Sofrônio sobre as duas vontades; ora, de seu escrito resulta que Ciro ensina uma única vontade, e que ele, Sérgio, aprova essa doutrina no sentido de que não há em Jesus Cristo duas vontades contrárias. O Papa não pode senão aprovar esse sentido, e ele o aprova. Sérgio acrescenta que a discussão gira em torno de uma ambiguidade, e quer que seja proibido falar de duas vontades contrárias. Honório aprova essa posição e a impõe a Sofrônio, condenando sua carta como excessivamente acrimoniosa, e proibindo-lhe a fórmula: (Há em Jesus Cristo duas vontades.) A razão dessa proibição aparece nos próprios termos da carta de Honório: é que essa fórmula é perigosa e ambígua, e que se se fala de duas vontades, é fácil entender duas vontades contrárias. Como Monsenhor Dechamps mostra vitoriosamente, em sua primeira carta ao Padre Gratry, Honório, em sua carta, ensina o conceito expresso pela expressão: duas operações. Ele rejeita o termo de uma ou duas operações, porque o primeiro leva ao eutiquianismo, o segundo ao nestorianismo, e porque esse termo é uma novidade; de modo que - isso é claro em sua carta - seu erro se limitou a rejeitar uma fórmula nova, embora boa. Honório acreditava assim pôr fim à disputa e apaziguar o conflito, é nisso apenas que ele se enganou. Bellarmino deu a lista dos antigos autores que se abstêm de chamar Honório de herege e daqueles que o chamam de católico[10]. Além disso, a carta de Honório não foi um fato dogmático[11]. Finalmente, acrescentemos que muitos autores, mesmo contrários à infalibilidade do Papa, como Tournely, Noël Alexandre, querendo provar as duas operações, explicam a conduta de Honório no sentido católico.
2º Quanto ao Concílio de Constantinopla; este, por várias vezes, condenou Honório não por ter aprovado dogmaticamente um erro, o que constituiria para ele uma queda dogmática e para nós uma prova da falibilidade do Papa; mas por sua fraqueza e imprudência em sua conduta. As expressões nas quais essas condenações são formuladas, por mais fortes que possam parecer, não dizem outra coisa.
A
expressão de herege dada pelo Concílio de Constantinopla em sua décima oitava
sessão parece mais difícil de conciliar com a ortodoxia pessoal de Honório.
Ora, sem falar daqueles que, com Barônio, veem nessa passagem uma adição
posterior feita aos atos do Concílio e desprovida de autenticidade, pode-se
conceder que o Papa Honório, mesmo nessa passagem, foi condenado pelo Concílio,
mas não como culpado de erro dogmático. Não se deve dizer apenas: o Concílio é
uma regra de fé definida, então, se condena Honório como herege,
independentemente do que possa parecer ao exame privado das cartas de Honório,
é preciso, por causa de sua condenação, considerá-lo como herege. Tal é o
raciocínio do Padre Gratry. Mas é preciso acrescentar: devemos considerá-lo
como herege no sentido que o Concílio atribuiu a essa palavra e a essa
condenação. Ora, para julgar isso, é uma norma muito boa recorrer às próprias
cartas desse Papa.
Na frase do Concílio, o epíteto de herege não está imediatamente colado ao nome
de Honório; mas é separado dele por um ponto. O Concílio enumera os nomes de
todos os que foram culpados nas questões dos monotelitas; a esses nomes, ele
adiciona o de Honório, e a frase termina aí. É apenas na frase seguinte que se
diz: Omnibus haereticis anathema. Essa forma de frase permite excetuar
Honório não da condenação imposta pelo Concílio, mas do anátema e da
qualificação de herege, que aqui não é aplicada a ninguém em particular.
Mesmo que o epíteto de herege devesse ser atribuído ao nome de Honório junto com o dos outros, para concluir contra a infalibilidade do Papa, ainda seria necessário provar que essa palavra não é tomada, como muitas vezes é na antiguidade cristã, num sentido menos estrito do que aquele que lhe atribuímos hoje, e que não significa fomentador da heresia ou protetor dos hereges por malícia, fraqueza ou imprudência. Assim, no caso presente, a qualificação de herege, se for dada a Honório, significa que esse pontífice foi condenado como culpado, não por ter errado na fé, mas por ter, de fato, encorajado o erro por sua negligência, em vez de extirpá-lo desde o início, como era apropriado. Essa resposta é a de Perrone e de Rohrbacher[12]. É assim que Leão II entendia a questão, quando, explicando a condenação imposta a Honório, escreveu ao imperador Constantino[13].
Contudo,
São Ligório admite que Honório cometeu um erro ao negligenciar extirpar a chama
nascente da heresia - Flammam haeretici dogmatis non, ut decuit apostolicam
auctoritatem, incipientem extinxit, sed negligendo confovit. E mesmo,
segundo uma opinião autorizada, os Padres do Concílio teriam desejado
condená-lo como herege; mas esse desejo resultava de um erro de fato que teria
levado os Padres a acreditar erroneamente que Honório havia errado (como doutor
privado, é claro), um erro, aliás, explicável, já que naquela data o Concílio
não era mais ecumênico[14].
Nas três cartas de São Leão II, a primeira aos bispos da Espanha, a segunda ao
rei Ervig, a terceira, a principal e aquela pela qual ele confirma o VI
Concílio, ao Imperador de Constantinopla e aos bispos do Oriente, o Sumo
Pontífice, ao mesmo tempo em que nomeia e censura Honório, distingue entre
Sérgio e Ciro, a quem acusa de crime contra a fé, e Honório, a quem acusa
apenas de ter negligenciado o dever de seu cargo e falhado em extinguir a
heresia. Esta última carta, sobretudo, é o documento mais importante do
Concílio que ela confirma, não porque o modifique, mas porque regula o valor
das outras cartas e determina o sentido do Concílio. Ora, o texto grego dessa
carta diz: Anathematizamus inventores novi illius erroris: scilicet
Theodorom... necnon et Honorium qui hanc apostolicam Ecclesiam non conatus est
doctrina apostolicae traditionis puram tueri, sed profana illa proditione
maculari immaculatam permisit. E aqui estão as mudanças pérfidas que alguns
tradutores fizeram:
1º em vez de permisit, eles colocaram conatus est, suprimindo a frase anterior em que estava;
2º em vez de maculari, eles colocaram subvertere, o que é mais grave;
3º perto de immaculatam, que se refere a hanc Ecclesiam, eles intercalaram fidem. Agatão, em uma carta a seus legados, que foi lida na quarta sessão do VI Concílio, à qual todos os Padres, exceto um, aderiram na sexta sessão, diz que a fé sempre foi preservada pura entre os sucessores de São Pedro até ele; ele repete a mesma coisa em uma carta ao Imperador; de onde se conclui que o Papa Honório não pode ser acusado de erro dogmático. O mesmo testemunho nos é dado por uma multidão de testemunhas autorizadas dessa grande controvérsia...
IV
O PODER TEMPORAL DO PAPA
O
que fará, o que deve fazer a Santa Sé, se a situação atual se prolongar, em
Roma e na Europa?
O Padre Curci foi expulso da Companhia de Jesus por ter defendido uma tese que
se resume mais ou menos ao seguinte: "Após Pio IX e cansado da guerra, a
Santa Sé finalmente tomará a decisão de encerrar, por meio de um acordo baseado
em concessões, a atual situação que é anormal e incapaz de durar, pois é
violenta, forçada e provisória. Já que ninguém entre aqueles que podem ajudar a
Santa Sé a recuperar sua antiga situação deseja se envolver; já que até mesmo o
retorno a essa antiga situação parece impossível com a forma atual e futura da
Europa, será necessário chegar a um acordo baseado em concessões e, por meio
dessas concessões, obter uma nova situação igualmente digna da Igreja, mas
estabelecida sobre outras bases." A tese do Padre Curci é ousada, e
acredito facilmente que sua ideia está em muitas mentes, mesmo não liberais,
pelo menos em alguns aspectos. Mas sempre desconfiei dela, e se surgir dessa
questão uma declaração expressa do Papa informando os católicos de que essa
opinião vai contra os princípios, não ficarei nem um pouco surpreso. Devemos
admitir, aliás, que a teoria do Padre Curci já tem contra si dois poderosos
argumentos:
1º a conduta prática da Santa Sé, que se mantém firme e, explicando sua maneira de agir em seus documentos, reivindica a antiga situação e anuncia a intenção resoluta de não ceder e de só fazer um acordo em caso de restituição;
2º o sentimento católico. Há especialmente uma parte da teoria do Padre Curci que me chocou e que considero liberal, utópica e absurda; é aquela em que, não se limitando a pedir e anunciar um acordo, ele define suas bases, e propõe ele próprio um plano de reconstrução do poder temporal, entrando em detalhes, supondo um rei da Itália perfeitamente católico e em acordo com o Papa, transformando o poder secular e seus agentes em funcionários da Igreja no departamento dos assuntos civis, etc. Isso me parece perigoso, ridículo e não me inspira nenhuma simpatia. A Santa Sé, no início do Pontificado de Pio IX, havia tentado o elemento leigo em sua administração temporal, e se arrependeu; não acredito que ela retornará a isso e que deva retornar; e não é nisso, parece-me, que consistirá o acordo, se ele ocorrer[15].
- VIRO-MARIA.ORG
[1] Salmo X, 21
[2] Nota de Virgo-Maria: O Papa sendo "a Eucaristia do ministério eclesiástico", um dos objetivos de Satanás, que pediu a Nosso Senhor mais tempo e mais poder (Leão XIII...) para tentar aniquilar a Santa Igreja Católica e Romana, foi destruir essa cratera do vulcão sobrenatural, substituindo-o, após cerca de cem anos, por usurpadores, cortando de fato, após a supressão em 1968 do sacramento da ordem episcopal e, portanto, do sacerdócio, o canal da Santa Eucaristia. Isso não significa que a Igreja não existe mais, pois restam bispos, sacerdotes e fiéis totalmente católicos, e que o Corpo Místico da Igreja, com Nosso Senhor como sua cabeça, não podendo ser atingido, a Santa Igreja, vivendo sua Paixão como Nosso Senhor, permanece sempre uma, santa, católica e apostólica. Não devemos esquecer que o chefe da Igreja é Nosso Senhor Jesus Cristo, e que o Papa é apenas seu vigário, seu representante visível. Mas durante a vacância da Sé Apostólica, Nosso Senhor Jesus Cristo é sempre o chefe. Essa vacância total do vigário pode durar dias, meses (...) anos, ou até mesmo décadas (caso do cisma do Ocidente, que durou quase 39 anos (e mesmo quase 70 anos se contarmos os antipapas), período durante o qual nenhum fiel soube realmente quem era o verdadeiro Papa durante toda essa época! Lembraremos de São Vicente Ferrer e de Santa Catarina de Siena, cada um com seu Papa!).
[3] Discurso sobre a unidade da Igreja, 2º ponto.
[4] Cf. Thomassin, Disciplina da Igreja, t. V, p. 205. - Livro II, cap. 68, nº 6. - De Maistre, Do Papa, liv. I, cap. XIII e XVI.
[5] De Maistre, Do Papa, livro I, cap. 16. - Bossuet, Política tirada da Sagrada Escritura.
[6] O termo "ensinamento" aqui refere-se à doutrina ou pregação da Igreja.
[7] Obras Completas, tomo III. Estudos sobre o Cristianismo, etc., passim, especialmente Livro I e Livro II. Obras Completas de J.-B. Aubry.
[8] Obras Completas, tomo III. Estudos sobre o Cristianismo, etc., passim, especialmente Livro I e Livro II.
[9] Nota de Virgo-Maria: os inimigos da Igreja citam Honório, mas também São Libério, João XXII e outros. É IMPOSSÍVEL QUE UM PAPA POSSA ERRAR. Caso contrário, isso equivaleria a dizer que Nosso Senhor nos enganou, o que é uma blasfêmia!
[10] De Rom. Pontif. Livro IV, cap. XI. - Gerbet, Esboço de Roma Cristã, tomo I, cap. V.
[11] Revista de Ciências Eclesiásticas, novembro de 1869, p. 449.
[12] Perrone, tomo II, p. 339 - Rohrbacher, História Eclesiástica, tomo X, p. 380.
[13] Apud Franzelin, p. 519.
[14] Cf. Estudos dos Jesuítas, 4ª série, tomo VI, pp. 145. 148.
[15] Os eventos, aqui novamente, deram razão às ideias do Padre Aubry; pois a Santa Sé condenou a teoria do Padre Curci, e continua a protestar contra a usurpação piemontesa.