A Devotio Moderna Nominalista, Voluntarista e Sua Origem Gnóstica

30/12/2024

Tradução: Prof. Gabriel Sapucaia

Autor: Pe. Basílio Méramo

A Devotio Moderna Nominalista, Voluntarista e Sua Origem Gnóstica

Raízes e Influências da Devotio Moderna

É essencial compreender a relação entre a chamada Devotio Moderna – cujo principal expoente místico foi Tomás de Kempis (1380-1471) – e a mística alemã renana, representada pelo dominicano Eckhart (1260-1328), comumente conhecido como Mestre Eckhart. Embora seja considerado um grande místico, o pensamento de Eckhart possui traços gnósticos e cabalísticos, a ponto de ser visto como o grande metafísico da Gnose.

A Devotio Moderna surgiu como uma corrente espiritual na baixa Idade Média, nos Países Baixos, no final do século XIV. Seus fundadores foram Gerardo Groote (1340-1384), criador da organização feminina Irmãs da Vida Comum, e seu seguidor Florêncio Radewijns (1350-1400), que fundou a congregação masculina Irmãos da Vida Comum. Em 1378, Radewijns inaugurou em Windesheim, Alemanha, um mosteiro que unia clérigos e leigos, dando origem à comunidade de canônicos regulares de Santo Agostinho.

A espiritualidade da Devotio Moderna pode ser descrita como voluntarista, antiespeculativa, nominalista e moralista.


Influências Filosóficas e Teológicas

A Devotio Moderna foi influenciada pelo voluntarismo teológico de Duns Escoto (1265-1306) e pelo nominalismo de Guilherme de Ockham (1295-1350). Não se pode ignorar o impacto do nominalismo, nascido da antiga disputa escolástica sobre os universais, que reduziu as essências a meros nomes (nomina).

Esse nominalismo influenciou profundamente a teologia e o pensamento filosófico, cujas consequências negativas ainda sentimos. O próprio conceito de Devotio Moderna reflete a marca de Ockham, que contrastava com a escolástica tradicional.

Ockham, figura central do nominalismo, deu continuidade às ideias de Roscelino (1050-1121) e Abelardo (1079-1142). Seu voluntarismo extremo afirmava que:

"Se Deus mandasse adorar uma mula, esse ato seria bom", pois, segundo ele, todo o bem e o mal dependem unicamente da vontade de Deus e não de Sua sabedoria.

Essa visão é bem ilustrada nas palavras de Ockham, segundo as quais:

"O que Deus quer é necessariamente justo e bom, precisamente porque Ele o quer. De Sua vontade procede a lei e todo valor ou qualificação moral. (...) Deus pode mudar o primeiro mandamento e ordenar, por exemplo, que um homem O odeie; nesse caso, tal ato seria bom. Igualmente, o ódio ao próximo, o roubo e o adultério seriam meritórios se Deus assim o ordenasse" (Les Sources de la morale chrétienne, P. Servais-Théodore Pinckaers O.P., Ed. du Cerf, Paris, 1993, p. 256).


A Resposta de Santo Tomás de Aquino

Esse voluntarismo nominalista foi refutado por Santo Tomás de Aquino, que considerava blasfemo afirmar que Deus cria ou ordena algo sem considerar Sua inteligência e sabedoria.

Tomás ensina:

"Deus age voluntariamente, mas por uma ordenação de Sua sabedoria" (Suma Teológica, I-II, q. 79, a. 3).

E vai além:

"Dizer que a justiça depende unicamente da vontade divina é afirmar que a vontade de Deus não procede segundo a ordem da sabedoria, o que é blasfemo" (De Veritate, q. 23, a. 6).

Com isso, Santo Tomás condena claramente o voluntarismo teológico.

O Pe. Cornelio Fabro, de quem o Pe. Meinvielle afirmou:

"É possível que, após sete séculos de tomismo, apenas o Pe. Fabro tenha compreendido novamente o ato de ser? É possível...?" (Elvio Fontana, In Memoriam Cornelio Fabro, Ed. Verbo Encarnado, San Rafael - Mendoza, Argentina, 1995, p. 31).

Infelizmente, a escola tomista, desde Cayetano e Báñez, tornou-se mais cayetanista e bañeciana do que propriamente tomista.

O Pe. Fabro, ao tratar do nominalismo protestante de inspiração agostiniana, classificou o nominalismo como a maior tragédia espiritual que já recaiu sobre a razão humana. Ele descreve essa corrente como um fideísmo absoluto, que desvirtua a verdadeira fé ao propor que quem crê não entende nem raciocina – visão que foi o berço do protestantismo.

O Pe. Fabro também aponta o nominalismo em Tomás de Kempis, autor da Imitação de Cristo, com a seguinte advertência:

"O autor da Imitação de Cristo – sem dúvida, um autor profundo, mas nominalista – escreve: 'De que me serve compreender a Trindade? Para mim basta rezar à Trindade; de que me serve discutir sobre as Pessoas da Santíssima Trindade se não tenho a retidão para agradá-la?'" (La Crisi della Ragione nel Pensiero Moderno, Cornelio Fabro, Ed. Forum, Udine, Itália, 2007, p. 43).

Esse trecho evidencia como o Pe. Fabro identifica a influência do nominalismo na espiritualidade de Kempis.


O Nominalismo e a Teologia Moral

O Pe. Servais Pinckaers, O.P., destaca o impacto do nominalismo na teologia moral:

"Com o nominalismo, abriu-se um abismo profundo entre os moralistas modernos e a tradição patrística" (Ibidem, p. 262).

Pinckaers também explica a visão de Guilherme de Ockham sobre Deus:

"Para Ockham, Deus é a realização absoluta da liberdade, graças à Sua onipotência. Deus não está submetido a nenhuma lei, nem mesmo moral; Sua vontade livre é a única causa e origem da moral" (Ibidem, p. 261).

Além disso, ele ressalta a ampla influência dessa corrente:

"As doutrinas de Ockham se difundiram amplamente, dando origem ao nominalismo, que influenciou profundamente o pensamento ocidental no final da Idade Média" (Ibidem, p. 251).

Quanto a Kempis, Pinckaers comenta:

"Autores espirituais como Tomás de Kempis, na Imitação de Cristo, frequentemente advertiam seus leitores contra a vaidade das especulações teológicas" (Ibidem, p. 265).


A Influência Gnóstica e Cabalística

A filosofia moderna carrega uma forte marca nominalista e também gnóstico-cabalística.

O Mestre Eckhart (1260-1328), um dos pilares da mística renana, foi condenado após sua morte por proposições heréticas. Mesmo assim, permanece renomado como autor espiritual e místico. Ele, junto com seus discípulos Susão e Taulero, forma um tríduo místico alemão-renano ao qual se associa também Ruysbroeck (1293-1381), mestre de Groote e Kempis.

O Pe. Julio Meinvielle, em seu livro De la Cábala al Progresismo, relaciona a gnose cabalística com Eckhart:

"A gnose, antiga ou moderna, mistura os mistérios de várias religiões e tradições com elementos cristãos. Todas têm uma estrutura comum, inspirada no hinduísmo, parsismo, religiões caldeias e egípcias, hermetismo e, inevitavelmente, no molde fundamental da gnose cabalística" (De la Cábala al Progresismo, Ed. Calchaquí, Salta, 1970, p. 294).


Críticas de Fabro a Eckhart

O Pe. Fabro, sem abordar diretamente a gnose ou a cabala, critica Eckhart por sua concepção filosófica e metafísica, que contamina sua teologia:

"Para Eckhart, como para Avicena, o esse é um fluxo divino, intrínseco ao homem, identificado como uma centelha divina – uma ideia compartilhada pela cabala e pela gnose" (Participação e Causalidade segundo Santo Tomás de Aquino, Ed. Eunsa, Pamplona, 2009, p. 522).

Fabro ressalta que:

"Em Eckhart, o esse (ser) é uma formalidade suprema, totalmente possuída por Deus, abrangendo tudo como um fluxo, uma luz, um éter. Assim, o esse, que é Deus, é completamente igual em todas as coisas" (Ibidem, pp. 524-525).

Essa visão contrasta radicalmente com a distinção tomista entre esse e essência, bem como com a doutrina da causalidade.


A Influência de Kempis e o Nominalismo

A associação de Kempis ao nominalismo é crucial para entender sua influência na espiritualidade da Devotio Moderna, da qual ele é o expoente máximo.

Outro nome importante, Nicolau de Cusa (1401-1464), foi um discípulo da Devotio Moderna e profundamente influenciado pela cabala.

Meinvielle afirma sobre ele:

"Para Nicolau de Cusa, na essência divina coincidem e se confundem todos os contrários: o todo e o nada, o ser e o não-ser, o criado e o por criar" (De la Cábala al Progresismo, p. 231).

Essa visão, que ecoa o panteísmo de Eckhart, reforça a ligação entre a Devotio Moderna, o nominalismo e a gnose.

O Pe. Cornelio Fabro afirma:

"Eckhart nos conduz diretamente até Nicolau de Cusa" (Ibidem, p. 507).

Se Nicolau de Cusa é considerado o pai da filosofia alemã, culminando em Hegel como seu fruto, o Mestre Eckhart seria, metaforicamente, o avô.

Outro personagem significativo da Devotio Moderna, o sacerdote Gabriel Biel, foi membro dos Hermanos de la Vida Común, chegando a ser um de seus superiores. Discípulo de Guilherme de Ockham e seguidor de Duns Escoto, Biel teve grande influência sobre Lutero, chegando a decorar trechos de seus textos.

O renomado humanista Erasmo de Roterdã, precursor de Lutero, foi aluno em Deventer dos Hermanos de la Vida Común e, aos 18 anos, ingressou no mosteiro de Emaús de Steyn, dos cônegos regulares de Santo Agostinho, que compartilhavam da espiritualidade da Devotio Moderna. Os escritos de Erasmo, conforme Lutero frequentemente proclamava, ajudaram a moldar a Reforma Protestante.


A Influência Nominalista e Gnóstica na Devotio Moderna

Nesse ambiente nominalista, voluntarista e gnóstico, surge a figura de Tomás de Kempis e sua obra Imitação de Cristo, que, embora de fundo espiritual e piedoso, reflete esses lineamentos, dada a influência marcante da Devotio Moderna, do voluntarismo nominalista e da mística gnóstica de Mestre Eckhart.

O nominalismo de Guilherme de Ockham penetrou na Devotio Moderna de forma inegável, como expõe Alfredo López Amat, S.J.:

"A Devotio Moderna, com mais sombras do que luzes, surge no final do século XIV nos Países Baixos e se espalha pela Europa durante o século XV, especialmente na Alemanha. Essa piedade enfatiza a experiência, ativa as forças afetivas e valoriza o domínio próprio, preferindo 'sentir a compunção a conhecer sua definição' (Im. Chr. I, 1, 9). Por esse traço empírico, a Devotio Moderna se alinha com o nominalismo da escolástica tardia" (El Seguimiento Radical de Cristo, vol. I, Ed. Encuentro, Madrid, 1987, p. 261).

O Pe. Servais Pinckaers, O.P., destaca:

"O pensamento de Ockham difundido pelo nominalismo representa uma ruptura crucial na história da teologia moral. Ele inaugura a 'moral da obrigação', deslocando o foco da busca da felicidade para a obediência às leis" (Les Sources …, pp. 260-264).


A Influência Gnóstica de Eckhart

A mística alemã do Mestre Eckhart deixou marcas profundas na Devotio Moderna, conforme expõe Peter Burke e R. Po-Chia Hsia:

"A Devotio Moderna e a mística renano-flamenca surgiram nas margens do Baixo Reno no final da Idade Média. A Imitação de Cristo, atribuída a Tomás de Kempis, reflete o legado dessas correntes espirituais, centrando-se no desapego ao mundo e na imersão completa em Cristo" (La Traducción Cultural en la Europa Moderna, Ed. Akal, Madrid, 2010, pp. 101-102).

A influência de Eckhart também é observada em seus discípulos, como Tauler, Susão e Ruysbroeck, que disseminaram suas ideias, promovendo a noção de uma "centelha divina no interior de cada pessoa", acessível apenas pelo afastamento do mundo.


A Conexão com Lutero

A ligação entre a Devotio Moderna e Lutero é evidente. José Orlandis escreve:

"A mística alemã e a Devotio Moderna compartilham influências, especialmente de Ruysbroeck, que inspirou Gerardo Groote, fundador dos Hermanos de la Vida Común" (Historia de la Iglesia, Ed. Palabra, Madrid, 2012, p. 312).

Outro autor corrobora:

"A espiritualidade do Mestre Eckhart foi propagada pelos Países Baixos, influenciando a Devotio Moderna por meio de Ruysbroeck" (Estampas de Místicos, Vol. III, Ed. OPE, Caleruega, 1986, p. 71).


Conclusão

Fica evidente a profunda influência gnóstica-cabalística do Mestre Eckhart sobre a Devotio Moderna. Sua espiritualidade, marcada por traços do nominalismo e do voluntarismo, foi um dos alicerces que prepararam o terreno para o protestantismo e para as transformações espirituais que moldaram a modernidade.


Pe. Basilio Méramo
Bogotá, 4 de janeiro de 2017.